Thursday, July 27, 2017

Passageiro Gracia - parte final




Garcia partiu ontem às quatro da tarde.

Dormiu para não mais acordar. Não sofreu, já tinha sofrido antes. Nos últimos dias foi piorando cada vez mais e decidimos não prolongar a sua dor. Foi a decisão mais difícil e dolorosa para nós.

Anteontem à noite, depois da janta, dividiu uma cerveja com a Eloá, hábito criado a uns dez dias. Quando cheguei o encontrei no sofá deles, com a cabeça apoiada no ombro dela (apertada no canto do enorme sofá). Nem se mexeu, só os olhos me seguiam atentamente, apesar de roncar alto. Muito mais tarde dormimos, eu e ele, abraçados no sofá deles. Acordou às três da madrugada para um xixi longo como um rio, no balcão dos fundos. Em seguida, me mandou dormir no sofá pequeno.

Acordamos às sete. Um novo passeio até o balcão, remédios, um pouco da comida que preparo para ele (batata, cenoura e verduras cozidas até desmanchar, misturado com frango cozido sem pele e sem gordura, desfiado). E é nesse momento que ele sempre deixou claro o quanto um pitbull pode ser feroz com a comida. Novo passeio ao balcão, uma coleção completa de beijinhos e a mordidinha de sempre no meu nariz. Cochilo.

Uma hora depois, fomos ao Jardim da Memória, na rua de casa. Como tenho feito no último ano, levo ele no colo, desço um andar de escada (mais fácil que pegar o elevador, acreditem), Entramos no carro, dirijo por cem metros, estaciono, pego no colo e procuro fazêlo caminhar um pouco. Cheira alguns pontos do jardim, faz xixi e cocê (mas nem sempre, às vezes prefere fazer na garagem, quando voltamos) e tenta dar alguns passos. Se esforça mais na presença de outros cães. Tem dificuldade para permanecer em pé, mesmo com a minha ajuda. Um gole d'água da sua garrafa, talvez acreditando ser um humano ele também. Deita esperando que eu colha um punhado de grama, que ele devora como se fosse uma cabra. Vinte minutos depois, quer voltar para casa. Colo, carro, escada...

Em casa, espero que ele se adormente e saio para alguns afazeres urgentes. Volto ao meio-dia e ofereço comida a ele, que cheira e vira a cara. Assombro. Lembro dos primeiros dias logo após a adoção, quando estava tão triste que parecia decidido a deixar de viver. Pego aquela gororoba cremosa e grudenta com as mãos e aproximo dele. Come tudo até lustrar minhas mãos. Aproveito para comer também (a minha comida, não a dele) e saímos para outra voltinha. Primeiro de carro, que ele tanto gosta, depois, no jardim. Somos só nos dois e o cheiro de xixi - que só ele sente - dos seus muitos amigos. Ficamos ali até às três e meia. É um lindo dia de sol, temperatura agradável, uma brisa constante e as cigarras que cantam para nós. De alguma janela ali perto, toca repetidamente "Somewere Over The Rainbow" na voz doce de Iz. Ele ronca, eu choro enquanto o acaricio. Voltamos para casa e ele se vai.

Foram quase três anos intensos e maravilhosos.
Ele nos fez conhecer gente boa e especial. Cuidamos dele esperando fazer o melhor possível. Em troca, recebemos um amor imenso como não imaginávamos. E mais: fez um monte de amigos (menos o Mojito - doce Mojito - vai saber porque); suportou as minhas mordidas sem se lamentar e sem me machucar. Ou quase. Destruiu todas as bolinhas de tênis que encontrou; nadou no Trebbia; enriqueceu o dono da farmácia; destruiu o armário da cozinha, as latas de lixo, o banheiro, a prateleira do pet shop, quando o proprietário o fez experimentar um daqueles colares elisabetanos afirmando "esse ele não destrói!" Destruiu tudo, inclusive o colar, com a velocidade de fórmula 1. Destruiu, também, um monte, mas um monte de corações.

Estamos tristes pela sua partida. Ao mesmo tempo, felizes por ter dividido com ele seus últimos anos de vida. Garcia nos ensinou muito e nos amamos além do limite. Era, acima de tudo, um amigo. Fazia parte da família e nós compúnhamos a sua matilha. No fundo tínhamos esperança... E no entanto, nos deixou uma última lição: cães não conhecem a esperança, um sentimento que nos tira o fôlego e deixa suspensa a vida. Não, cães vivem um dia de cada vez, aproveitam o que podem. cães vivem e basta.

Sentiremos muito a sua falta.
Tchau Amorzão.
Tchau Amigo.
Tchau Garcia.

R.I.P.
31.1.2003
26.7.2017
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Mais sobre Garcia:





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Saturday, July 08, 2017

Neza




Essa é a história da Neza. Pensanso bem, é um cadinho da história da Neza mais o Zé, porque um sem o outro era nenhum. Gentes simples, como simples é a vida. Eram, também, epeciais. Não só porque cada pessoa è especial, mas porque eram especiais.

Juntos viveram e viveram. Deram duro para criar os filhos (sim, tiveram filhos) com exemplos de moral, amor e fé. Fé na vida, fé nas gentes. Ele, sempre concentrado no trabalho, quando tinha que trabalhar; concentrado no repouso quando tinha que descansar; concentrado na pescaria, quando ia pescar. Com a família no centro do mundo. Ela, atenta a tudo o tempo todo, com a família que cada vez mais se expandia, adicionando parentes, amigos e nescessitados.

O Zé era de um modo doce e educado, um jeito simples de resolver as coisas. A Neza era direta, instintiva, de sentimentos intensos e decidida. Beijava e brigava com a mesma energia, raiva e perdão. Eram opostos e diferentes que, unidos, beiravam à perfeição. Talvez por isso mesmo viveram juntos uma vida, mesmo depois que os filhos criaram, cada um, a própria família. Foi pra isso que criaram os filhos. 




Um dia o Zé foi embora, pescar em outros lugares que não fossem o ‘Panema. A Neza ficou só, na casa que agora era só dela, no canto dela. “Me deixa quieta no meu canto”, dizia. Os olhos já não refletiam o brilho de sempre. Passava o tempo esperando o tempo passar. Nem raiva nem perdão.

Domingo passado foi dia de festa, com músicas que ela não ouvia há muito tempo. Os olhos azuis do Zé cruzaram com os dela e a Neza entendeu como um convite. Ela aceitou e foi dançar com o Zé. Juntos de novo, estão lá dançando, como se não houvesse mais nada no Universo senão dançar. A Neza decidiu continuar a história deles, mesmo que o Zé decida ir pescar em outros ‘panemas. Ela vai atrás.

Porque o Universo é lugar de ficar junto. E de dançar.






Saturday, July 01, 2017

O resto do lixo



Quem aí se lembra do blog Lixo tipo especial do querido e divertido Flavio prada levanta o mouse.

Sim, ele tinha transferido o blog para o Verbeat e esqueceu de salvar tudo antes que o Verbeat fechasse. O bom é que ele agora voltou a escrever. Tá bom, o rimeiro post não foi exatamente escrito mas tá valendo. O novo endereço è

Vão lá visitar e aproveitem para desopliar o fígado.
:)


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Saturday, June 24, 2017

Trilha sonora italiana - Francesco De Gregori



Pode acontecer de um cantor ou compositor voltar a fazer sucesso após um período de ostracismo. Não é o caso do cantor e compositor Francesco De Gregori (Roma, 1951).  Ele jamais deixou a ribalta italiana.

Já nas primeiras exibições no Folkstudio – um espaço alternativo da Roma dos anos sessenta – pode-se notar a proposta introspectiva de De Gregori. Fã declarado de Bob Dylan (que também se exibira no Folkstudio quando ainda era desconhecido), compôs recentemente o disco  “De Gregori canta Bob Dylan – Amore e Furto”
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É difícil montar uma coletânea com as melhores canções desse artista inteligente e refinado, entre os mais premiados da música italiana, também chamado de “Il Principe”, o príncipe da música italiana. Anote o nome, ouça e faça você mesmo uma lista. Boa sorte!

Alguns sucessos:

La Donna Canone (uma história verídica sobre um circo em dificuldades, depois que a “mulher bala”, a principal atração, fugiu por amor)


Generale


Rimmel


Come il giorno (Bob Dylan)


Alice (a canção que o fez famoso eque voltou a tocar insistentemente nas rádios)

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Friday, June 02, 2017

Escola XV


Quem viveu o Rio nos anos setenta, conhece bem a Escola XV (Ginásio Industrial Quinze de Novembro – GIQN). Quem não viveu, não vai entender o que ela representava. Códigos, regras e gírias próprias. Grandes comprimidos placebo produzidos localmente (com pão…?) lotavam os enormes vidros da enfermaria. Eram indicados para tudo. E funcionavam. Enterrávamos sapoti para amadurecer e torrávamos castanhas de caju em latas vazias. O orgulho era a sala de troféus e os muitos atletas que de lá saíam. “Djonca” era sinônimo de perigo, cuidado, se manda.

1) 1970, dia de vacinação. Mil e quinhentos alunos em fila e em silêncio. Duas enfermeiras com pistolas, uma para cada braço. A organização era por ordem de classe e alfabética. Nem mesmo as moscas se atreviam a voar. O aluno passava e tomava a primeira vacina no braço direito, dava um passo e tomava a segunda no esquerdo. Quem teria resitido à tentação? Eu não. Primeiro da fila: Allan, da Primeira A. Segurei o riso e berrei o mais alto que pude. Duas vezes. Lembro do desespero dos poucos inspetores tentando capturar os fujões medrosos. Perdeu-se o dia com a vacinação. Houve, inclusive, quem duvidasse da minha dor.

2) Driblamos a vigilância e fomos roubar goiaba na chácara do vizinho – longe pra caraca! Corremos quando a sentinela avistou o proprietário e deu o alarme. Manhã seguinte, depois do café e antes da formação para a aula, Seu Glaston – chefe de disciplina – apareceu na varanda cinco degraus acima do pátio e apitou com estridência: “Priiiii!” Naqueles momentos todo mundo brincava de estátua. Nem virar a cabeça podia, só o barulho da bola rolando e a voz do Seu Glaston no microfone: “Formação de disciplina – Priiiii!” Pronto, podia-se voltar à pelada. Sem muito entusiasmo, porque formação de disciplina anunciava merda.

Tínhamos três tipos de formação, uma para aula, por classes e ordem alfabética; uma para o refeitório, que se formava a partir de quem chegase primeiro, sem correria; uma de disciplina, por dormitório e altura, com os mais baixos na frente. Cinco minutos depois Seu Glaston apareceu de novo no balcão: “Priiiii!” Naquele momento não precisava dizer mais nada, cada um sabia o seu lugar. Seu Glaston pegou o microfone e fez um discurso de meia hora sobre responsabilidade, honestidade ou coisa parecida, que ninguém escutava. Só nos preocupávamos em permanecer perfeitamente alinhados, em posição militar de descansar e sem se mexer. Após concluir a ladainha, esclareceu que um grupo de alunos tinha roubado goiabas no vizinho. Informou que o vizinho – o senhor al lado dele – ouvira o nome de um de nós e, batendo a “mãe preta” na mão (uma tira de borracha rígida de uns quarenta centímetros de comprimento, cinco de largura, por um de espessura – usada nas mãos oferecidas pelos infratores como sinal de arrependimento) chamou o senhor ao microfone. Frio na espinha. Quem teria esquecido a regra de nunca usar nomes? Até porque, éramos conhecidos pelo número de matrícula. Eu era o 405 (quatrocentos e cinco), meu irmão, 897 (oito, nove, sete) e por aí vai. Quantos josés deveriam ter? Sei lá. Poucas, pouquíssimas exceções; Hulk era o aluno mais forte da escola; Doinha era a estrela do basquete; Clidão (Euclides) o mais alto e mais magro. E tinha o Negão Dois Dez (210), que era um monstro. No bom sentido, claro. Tinha dois metros de altura por dez de largura. Cinematográfico lutador de judô que ignorava a filosofia daquele esporte (que eu e meu irmão também praticávamos, além do xadrez – este, com honras): “usar a força do adversário contra ele mesmo”. Dois Dez simplesmente levantava o adversário, se ajeitava embaixo e liquidava a luta com um ipon, independente do tamanho ou do peso do opositor. Não era raro ver o outro lutador desmaiar ao ser arremessado no chão com tanta força. Mesmo o Hulk mantinha distância dos debates sobre a força dele. Professor Paquetá ria e tinha o cuidado de ser gentil ao corrigir Dois Dez.

Voltando à disciplina, o vizinho recebeu o microfone das mãos de Seu Glaston e repetiu em voz alta o nome ouvido: “Djonca.” O chefe de disciplina ria tanto quanto nós. Supervisores gargalhavam e a formação estava desfeita, impossível recompor. O vizinho saiu em silêncio, ciente de que algo dera errado e de que os culpados não seriam identificados. Quase cinquenta anos depois ainda acho graça.

3) A escola tinha uma mascote, uma viralatas brincalhona e paparicada por todos. Acostumada com o falatório da multidão que ocupava o pátio nos momentos livres, só atendia se chamada pelo nome ou para correr atrás de bola.

Num meio de semana fomos informados que deveríamos nos preparar para uma visita importante. À noite, troca de uniformes por peças novas, o que significava visita imprtante. Manhã seguinte e um grupo de homens bem vestidos acompanhado de madames chegou. Formação de refeitório, sorrisos, dentes escovados e perfume de sabonete. As visitas tomaram café no refeitório, o que era ótimo. Café caprichado para imperssionar, bis a vontade e serventes simpáticas (ao contrário dos outros dias, quando os alunos que trabalhavam na cozinha serviam café com leite preparado com a água onde eles costumavam lavar os sapatos).

As atividades começariam meia hora mais tarde, para que as visitas tivessem a oportunidade de passear entre os bem comportados alunos. Metade dos alunos estudava pela manhã e metade pela tarde. Quem não estava estudando, estava em uma das muitas oficinas de formação (mecânica, tornearia, sapataria…) ou – como eu e meu irmão – no curso de música. Mas não nos dias de visita. Precisávamos causar ótima impressão.

Os visitantes se dividiram em dois grupos, masculino e feminino. Pouco antes da formação para aula, os grupos se reencontraram num ângulo do pátio, onde dormia preguiçosamente a nossa viralatas. “Como ela se chama?” Perguntou uma madame que parecia ser a esposa do mais importante. “Tem nome não. A gente chama assim: 'vem, tsc, tsc' e ela vem. Mas hoje tá com preguiça.” Os visitantes começaram a chamar, assobiar, abaixaram-se para que ela se sentisse confiante mas, nada. Insistiam, numa competição para ver quem era mais simpática. Nada. De repente a cachorrinha levantou abanando o rabo e foi em direção à multidão de alunos, de onde alguém a tinha chamado pelo nome, que todos conheciam: “Piroca!”

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